domingo, 30 de outubro de 2011

A RUA É NOSSA!

O IMA convida a todos indignados a se unirem na luta da busca pela democracia

Com este grito, centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas e praças de mais de mil cidades do mundo inteiro, em cerca de 100 países de todos os continentes.
Com inúmeras reivindicações setoriais e a denúncia do sistema capitalista como o gerador da fome, de todas as desigualdades (sociais, sexuais e raciais) que atingem milhões de seres humanos e da crise ambiental que ameaça a vida do planeta, o dia 15 de outubro ficará marcado na história como o dia em que @s indignad@s de todo o mundo disseram basta à exclusão e defenderam a implantação de uma DEMOCRACIA REAL em que todos sejam ouvidos e em que os governos não sirvam apenas para garantir os direitos de uma minoria que vive às custas da miséria, da opressão e da destruição dos bens naturais.

Na Europa, todas as principais cidades se mobilizaram e fizeram grandes manifestações. Nos EUA, o Movimento Ocupar Wall Strett se espalhou por todo o país e mais de cem cidades participaram das mobilizações. Também na Ásia o 15-O mostrou sua força, com mobilizações em países como Japão, Coréia do Sul, China e Taiwan.

No Brasil, dezenas de cidades também foram às ruas levar seu grito em defesa da vida, como São Paulo, Fortaleza, Curitiba, Salvador e Belo Horizonte. Em nosso Estado, além de Porto Alegre, que realizou uma grande manifestação, também Passo Fundo, Santa Maria e Pelotas estiveram presentes nesta luta.

Em nossa cidade, cerca de duas centenas de pessoas, entre estudantes, professores, previdenciários, camelôs, bancários, desempregados e muitos outros percorreram as ruas do centro e realizaram uma Assembleia Popular na Praça Coronel Pedro Osório.
Bandeiras como a luta contra os transgênicos e pela soberania alimentar do país, por 10% do PIB para a educação, por Reforma Política que estimule a democracia participativa e acabe com a ditadura financeira sobre os processos eleitorais e o atendimento das justas reivindicações dos trabalhadores que estão mobilizados e em greve, entre tantas outras, foram defendidas por todos os presentes.

Como encaminhamento, os presentes destacaram a importância daquele momento, ao promover o encontro de vários segmentos de lutadores sociais e apontaram para a continuidade deste movimento, procurando ampliá-lo e incorporando todos os debates que interessam aos setores populares de nossa cidade, hoje ignorados e desrespeitados por seus gestores. É preciso superar a divisão e o corporativismo e lutarmos juntos para construir outra cidade e outro país!

Convidamos a todos para reunião no dia 1º de novembro (terça-feira) às 17:30, no Instituto Mário Alves/IMA, para definir nossos próximos passos, inclusive a proposta de criação do Fórum de Lutas Sociais de Pelotas. Participe!

Associação dos Camelôs de Pelotas (ACAMPEL) - ASUFPEL - CSP/CONLUTAS - CUT/Regional Sul Coletivo Juntos Coletivo Levante - Coletivo Rede de Comunicação - Coletivo Tranca Rua - DCE UCPEL DCE UFPEL Instituto Mário Alves/IMA - RádioCom 104,5 FM - SINASEFE - SINDISPREV/RS Sindicato dos Trabalhadores na Alimentação/Pelotas

sábado, 29 de outubro de 2011

IMA divulga ações e expõe no Piquenique Cultural

No próximo domingo (30) o Instituto Mário Alves mais uma vez se fará presente no evento multicultural


Apoiador há quase um ano do Piquenique Cultural, a participação do IMA tem rendido bons frutos no contato maior com a comunidade e na divulgação de suas ações em eventos que possibilitam uma interação maior com o público.

No próximo domingo (30), o IMA levará àCOHAB Tablada a sua banca de livros juntamente com produtos de sua livraria, além de expor a Mostra de Fotografias sobre o Movimento Estudantil em Pelotas.


Sobre o Piquenique Cultural

É um evento multiartístico e itinerante que percorre a cidade há um ano, chega à sua 8ªedição, onde visita pela primeira vez o Bairro Três Vendas. O evento já passoupelo Fragata, Centro, Porto e Areal, desa vez irá para a Zona Norte de Pelotas.

No próximo domingo (30), a CohabTablada será convidada a realizar um piquenique coletivo na Praça Thomaz Flores, onde, das 15 às 19h, diversos artistas estarão mostrando seu trabalho ao público e alegrando a tarde de domingo.

Com uma extensa programação, o PIQUENIQUE CULTURAL se propõe a levar àquela comunidade um programa diferente, ao ar livre e gratuito. Haverá mateada, ensaio aberto do Teatro do Chapéu Azul, apresentações musicais de Janete Flores, Antiorquestra RZZZ, Matheus Almeida e Diego Beck, entre outros, Varal de Poesias, exposição de artesanato, oficinas de circo, exibição de cinema, atividades voltadas às crianças e muito mais.

Cerca de 250 crianças das Escolas Leivas Leite e Lar de Jesus estarão concorrendo a 5 kits-piquenique que incluem guloseimas e também material artístico, como um DVD do premiado curta metragem pelotense Sentimentário.

Participam desta edição do PIQUENIQUE CULTURAL: Grupo Olhos de Lata, Coletivo REDE, Ateliê Pulo de gato,Instituto Mário Alves, SOS Animais, Anjos e Querubins, além de artistas independentes.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Afro Cine: Projeto de cinema sobre questões da cultura negra

O Coletivo Negada informa as datas do primeiro afro-cine, mostra de longas e curtas metragens que trazem consigo questões sobre a questão afro-descendente. A ideia é se utilizar do cinema como uma forma de promover debates e reflexões.

O Afro-cine primeira edição se realizará no Instituo de Ciências Humanas (ICH) - Alberto Rosa, 154. O horário será sempre as 17 horas, na sala 145.

Filmes como Madame Satã e Good Hair já foram exibidos. A próxima edição será no dia 3 de Novembro com o filme Faça a coisa certa.

Confira a sinopse do filme:

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing)

Sal (Danny Aiello), um ítalo-americano, é dono de uma pizzaria em Bedford-Stuyvesant, Brooklyn, (lá também há um armazém cujos donos são coreanos). Com predominância de negros e latinos, é uma das áreas mais pobres de Nova York. Sal comanda a pizzaria juntamente com Vito (Richard Edson) e Pino (John Turturro), seus filhos, além de ser ajudado por Mookie (Spike Lee), um funcionário. Sal cultua decorar seu estabelecimento com fotografias de ídolos ítalo-americanos dos esportes e do cinema, o que desagrada sua freguesia. No dia mais quente do ano, Buggin' Out (Giancarlo Esposito), o ativista local, vai até lá para comer uma fatia de pizza e se desentende com Sal por não existirem negros na "Parede da Fama" dele. Sal retruca dizendo que esta parede é só para ítalo-americanos e se Buggin' Out quer ver fotos dos "irmãos" que abra sua própria pizzaria. Notando que não vê nenhum italiano para proteger Sal, Buggin passa o resto do dia tentando organizar um boicote contra a pizzaria. Este incidente trivial é o ponto de partida para um efeito dominó, que vai gerar vários problemas. Um desentendimento com Mookie o leva a enfrentar uma série de mal-entendidos, que resultam em pancadaria. A polícia chega ao local e acaba matando um dos fregueses, transformando a confusão em tragédia.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

IMA foi um dos organizadores do 15 O em Pelotas

Movimentos sociais e a comunidade em geral foram participantes da mobilização
na data simbólica




As reivindicações setoriais e corporativas sempre existiram e tiveram seu papel na construção das lutas sociais. Entretanto, as experiências de mobilização pela construção de uma sociedade socialista e humanista apontam a necessidade clara de unificação e de objetivos estratégicos bem delimitados.
A unidade na diversidade é uma condição fundamental do atual momento da luta política em nosso país e no mundo. Mas a unidade precisa ser construída a partir de bases que possam ir além da mera disputa parlamentar e institucional, espaços onde as classes dominantes sempre mantiveram seu controle ideológico. Também precisamos superar a longa trajetória da esquerda da busca de espaços de poder que na realidade nada significavam, além de pequenas vaidades pessoais. A luta pela sustentabilidade do planeta, pela igualdade de gêneros e etnias, por liberdades democráticas e pelas demais lutas políticas e ideológicas que hoje perpassam o planeta precisam construir um ponto em comum: o combate ao capitalismo e a todas as formas de dominação e discriminação.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

15 de Outubro: A voz e a hora d@s indignad@s do Brasil e do mundo


Há 500 anos, o Brasil é um país saqueado por políticos corruptos, ruralistas e empreiteiros gananciosos. O governo brasileiro segue dominado pela mesma elite que levou nosso país a um dos primeiros lugares em desigualdade social.


Estudantes e trabalhadores do mundo inteiro ocupam ruas e praças em busca de mudança:
A Espanha, Grécia, Portugal, sofrem as consequências da crise econômica. Os governos e empresários querem que a população pague a conta da crise criada por eles. Como resultados: cortes sociais, redução de direitos e desemprego. No Chile, o laboratório do neoliberalismo, não existem mais escolas ou universidades públicas e gratuitas. Já no Egito, Tunísia, Síria, Líbia, após anos de domínio das ditaduras com apoio das “democracias” do ocidente, garantindo-lhes a estabilidade e os lucros do petróleo. No último mês, em protesto contra as políticas do governo Obama, que despejou bilhões de dinheiro público para salvar os bancos, manifestantes ocupam o coração financeiro do capitalismo mundial: Wall Street.

No Brasil, desde o início do ano já sentimos o peso da crise com o corte de R$50 bilhões do orçamento. Sabemos que esse corte de verbas afeta exatamente os trabalhadores e a juventude. São recursos menores para educação, saúde e segurança. Por outro lado, logo depois, o governo destinou R$25 bilhões para as empresas, da mesma forma que destina quase 50% do orçamento para o pagamento da dívida interna e externa. Ou seja, retira do povo trabalhador e dá para banqueiros, empresários e multinacionais.

Desde o início do ano, tivemos operários da construção civil, metalúrgicos, bombeiros, policiais militares demonstrando com suas paralisações e/ou protestos a necessidade de melhores condições de trabalho e salário. Os trabalhadores da educação, em vários estados e municípios, estiveram em longas greves reivindicando Piso Salarial e estrutura para as escolas. Houve greve dos servidores de universidades e servidores e professores dos Institutos Federais estão com suas atividades paralisadas há dois meses. Não foram poucas as ocupações de reitorias para exigir qualidade na universidade pública. Atualmente temos Correios e Bancários em greve há vários dias, além dos servidores federais do judiciário e MP do Mato Grosso em paralisação de 48 horas.

Chegou o momento em que todas as nações, todas as pessoas se unem e tomam as ruas para dizer: Basta! É hora de assumir a nossa responsabilidade e o nosso direito a uma vida livre e justa. 15 de outubro: um só planeta, uma só voz.

Diante desses fatos, ocorre a organização do movimento 15 de Outubro, conhecido como 15.O, no mundo inteiro. Em Pelotas, várias organizações estão se empenhando para construir esse momento rico para toda a população.

Com o objetivo de somarmos forças, convidamos a todos a unirem-se a nós nesta organização. O IMA, juntamente com outras organizações, estarão reunidos nesta quinta feira, dia 13, às 18horas, na sede do DCE-UFPel – Rua Félix da Cunha – em frente à Praça Cel. Pedro Osório.

O movimento em Pelotas conta com as seguintes organizações:
DCE UFPEL – CSP- CONLUTAS – Instituto Mário Alves (IMA) - SINASEFE
DCE UCPEL – Associação dos Sargentos, Sub-sargentos e Tenentes da BM – regional Sul
ASUFPel – Rádio.Com – Associação dos Cabos e Soldados da BM – regional Sul
Sind. dos Trabalhadores da Alimentação – Associação dos Inativos da BM – regional Sul e Trabalhadores dos Camelôs.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

IMA expõe no Piquenique Cultural

Dentro das comemorações de 1 ano do evento, o Instituto Mário Alves estará presente no próximo domingo na Praça Cel. Pedro Osório


Chegando em dua 7ª edição, o Piquenique Cultural acontecerá na Praça Coronel Pedro Osório, a partir das 14 h, no domingo. Desde outubro do ano passado, o evento circulou por 04 bairros, apresentando cerca de 50 atrações artísticas diferentes para mais de 3000 pessoas. Ao Teatro do Chapéu Azul, idealizador do evento, uniram-se pelo menos 43 empresas, projetos e instituições que apostaram na iniciativa.

O Instituto Mário Alves tem sido parceiro da iniciativa, participando como expositor e apoiador das edições. Os participantes poderão conferir informações do Instituto e do Ponto de Cultura Memórias em Movimento, além de terem acesso ao material da livraria como livros, camisetas, adesivos, cartões e banners.

A edição que conta com mais de 40 atividades artísticas e culturais terá a edição do Cineclube 1968, projeto que o IMA também é parceiro e um dos idealizadores.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Pra quê caminhar tanto? ou, A quem pertence?


Mas por que tantos quilômetros? - Pra chamar a atenção, respondi secamente. – E pra isso eram necessários tantos dias, tanta logística? – insistiu uma amiga francesa a quem envolvi na missão de trabalharmos juntos na produção de um documentário em vídeo, agora na fase de edição, da Marcha da Reforma Agrária do Século XXI. Humm, é, de fato. Questionamento tão simples quanto reverberante. Povão formado por quase mil personagens, estradas de Goiás afora, homem e mulher dos 8 aos 80, literalmente, durante quase 20 dias que – e não me venha com ceticismo quem nunca conversa com militantes de movimentos sociais, nem nunca participou de um ato – acreditam, com mais ou menos intensidade, na importância da mobilização social. E o que a final se transforma/transformou?

Caminhamos com quase mil trabalhadores e trabalhadoras rurais, de dez diferentes estados dessa república federativa, todos os mais de 200 km que separam Goiânia/GO de Brasília/DF. A atividade se iniciou no dia 21 de agosto, e voltamos a Recife no dia oito de setembro. Fizemos a assessoria de comunicação, produzindo releases quase diários, enviando-os a um amplo mailing list, buscando a cobertura fotográfica de cada dia de caminhada, de cada uma das dez cidades por onde a Marcha passou, de cada atividade e personalidade que bravamente caminhou todo esse trajeto. Mantivemos atualizado um blog de noticias da Marcha, mídias sociais como Twitter e Facebook e álbuns de fotos – que ainda não são os oficiais – no Picassa. Além do documentário.

Voltamos exaustos. Na verdade, agora passados mais de dez dias do fim do evento, recém começamos a botar a casa em ordem, pois até agora houve várias “broncas”, como o pessoal aqui em Pernambuco costuma a dizer, pra resolver. Logo no dia seguinte do retorno tínhamos um artigo para apresentar no Congresso da Associaçao Latino-americana de Sociologia (ALAS), que esse ano foi aqui em Recife. E o corre-corre incluiu temas pessoais (como tentar deixar o apartamento em ordem para a desejada visita da família, que coincidiu nessa época) e profissionais, que perpassa também as pendências, ainda existentes, estruturais e políticas decorrentes dessa jornada.

A parte prática dessa maratona se inicia com a chegada de Marie e Pau, que moram em Barcelona. Pousaram em Recife no dia 19 de agosto, no dia 20 voamos para Goiânia, no dia 21 se dá Ato de Inauguração, no dia 22 o começo efetivo da Marcha, numa boa “toada”, de apenas 34 km, diretos, sem pausa pra descanso...

Nos dias seguintes, o despertar geralmente às 4h da madrugada, ou mesmo mais cedo, para haver tempo de um café da manha antes de se estar em fila na estrada às 5h, e dessa forma evitar caminhar sob o sol mais forte do final da manhã no terrivelmente seco Estado de Goiás; respiramos pó e terra que chegam a sangrar o nariz. A variação de temperatura é de clima desértico: frio à noite, calor escaldante durante o dia. A companheirada dos estados do Nordeste, maior presença na Marcha, teve que se acostumar também a essa intempérie.

A massa alvirrubra (e não falo de torcida de futebol), enfileirada, para caminhar ou para comer o arroz-com-feijao de cada dia, com o passar do tempo começa a ganhar nomes, e há mais contato, mais empatia e troca de histórias. Há gente que só ao estar ali vivencia o mais longe que já foi na vida – nunca havia saído de seu Estado e nem de sua cidade; gente que se dedica a cuidar de meninas em risco de prostituição nas suas localidades; gente que trabalha com circo, que fez parte do trajeto em perna-de-pau; gente que canta e toca e quer fazer carreira como músico; gente que recolhe latas de alumínio e acredita que o paraíso deve ser construído aqui na Terra; gente que é atleta, em profissionalização, e até disputa índice olímpico para os Jogos de 2016; gente que mesmo aos 83 anos faz questão de caminhar todos os trechos de Marcha e sabe trabalhar com marretas de 20 kilos; gente que fica sem cobertor durante a noite para ceder-lo aos de fora que parecem ser menos acostumados às dificuldades; gente que planta com a família, que faz farinha de mandioca, que vende, semanalmente, na feirinha do agricultor da sua comunidade.

Uma impressão particular estrangeira, da “companheira Marie”, postada no seu blog, é pertinente:

La mayoría vive en “acampamentos” esperando un trozo de tierra o en “asentamentos”. La vida en comunidad la conocen por eso no les resulta difícil acomodarse y compartir tantos momentos juntos. La unión hace su fuerza, juntos y gracias a estos kilómetros quizás alguien les prestará atención. Una reforma, quieren una reforma. No están solos en la lucha, expertos y lideres políticos llegan a alcanzar los micros. Es en el destino final de la marcha, Brasilia, que se expresa la voz del pueblo. Es aquí en esta ciudad flipada en forma de avión que se encuentran todos los ministerios y entonces las reuniones se suceden. El café ya no se sirve en una botella de plástico transformada en vaso pero en tasitas de porcelana.

É. Foi assim, numa média de 25 km caminhados por trecho que essa gente, a maioria em chinelos-de-dedo, marcou as manhãs de Goiás por mais de duas semanas com bandeiras vermelhas dos agricultores e agricultoras que defendem a luta por uma reforma agrária do século XXI – o projeto político do MLST.

MAIS QUE ROMPER CERCAS

Mas não, essa não é uma crônica romântica para afirmar o dinamismo de uma atividade desse porte, da vitória, do valor do sacrifício e da suposta consagração. Tampouco é uma descrição pessimista das dificuldades enfrentadas, senão uma reflexão quase óbvia, mas necessária, vinda da experiência direta como marchante e como parte de parte da organização, em uma atividade histórica, isso sim, no sentido literal da expressão, para um dos maiores movimentos de luta por reforma agrária do Brasil.

O Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) convocou e organizou essa Marcha. Se você não está habituado a temas políticos-agrários do país, perceba que, sim, o MLST e o MST são coisas diferentes. Eu tampouco sou um ativista da reforma agrária, particularmente, mas com uma história ligada à atenção para temas de organização popular, sei que um dos nós da questão (ou gargalos pra usar o jargão político, feinho, da moda no Brasil) é que há dezenas de grupos de luta pela terra no país, porém o MST (para o qual não é preciso abrir a sigla) detém uma espécie de “monopólio” do tema.

Pequeno exemplo: experimente digitar “luta pela terra no Brasil” no Google, e veja quantos resultados, só entre os primeiros, que incluem densos trabalhos acadêmicos, fazem referência direta ao MST. Esta é, sem dúvida, uma organização com uma história fenomenal, exaltada desde Antonio Candido a Eric Hobsbawm, uma indiscutível referência de movimento social e popular para o mundo. Possui uma tremenda estrutura, absolutamente high-profile (utilizando uma expressão gringa em deferência a própria ampla articulação internacional que o MST possui), que perpassa escolas, universidades, uma sólida institucionalização, inclusive.

Mas não é a única organização de luta pela terra no Brasil, não é a única proposta, não centraliza todas as idéias e alternativas para a questão agrária no país. Mesmo assim, para o conjunto da sociedade, ativismo pela reforma agrária é sinônimo de sem-terra, e sem-terra é sinônimo de MST. Não é por acaso que se ignora, dessa forma, uma diversidade de movimentos socioterritoriais, inclusive os de dimensão nacional, que possuem contribuições diferenciadas e igualmente importantes para o debate sobre a terra no Brasil. É verdade que entre esses muitos movimentos a maioria é regional, com atuações fortes em nível de estado. No caso do MLST, porém, a relativa invisibilidade, pelo menos em termos de grande mídia nacional, é ainda mais curiosa, porque o Movimento está organizado em dez estados da Federação e possui um aporte à questão agrária substancialmente – e pertinentemente – diferente da do MST. Isso é ainda revelador de uma situação que parece gerada de maneira consciente tanto pelos formadores de opinião política nessa mesma grande imprensa, como por atores políticos (e ai em nível partidário, no terceiro setor e entre os próprios movimentos populares) que fazem ou eco ao monopólio, ou vista grossa à diversidade de organizações de luta pela terra no Brasil – especialmente quando se trata de abordar suas propostas, suas pautas e contribuições que nem sempre se alinham com as do MST.

Ora, a questão da luta pela terra no Brasil é sempre abordada a partir da ótica do MST, e a referência aos outros movimentos, quando feita, é justamente apenas essa: “os outros movimentos populares”. Mesmo os meios de comunicação progressistas não costumam pautar essa diversidade. Muitos deles, aliás, possuem estrutura de financiamento em parceria com o próprio MST e assim seguem reproduzindo posições limitadas apresentadas como universais.

Senti isso, claro, durante a “Marcha da Reforma Agrária do Século XXI”. Buscar entender a proposta do MLST não foi agenda dos meios, não era de interesse nem dos “progressistas”. Era mais um evento de sem-terra, e não era nem do MST! Mais de mil pessoas caminhando mais de 200 km por mais de 20 dias. Haja estrutura! Haja coordenação! Haja organização! Por que tudo isso? Mas a abordagem midiática (de novo, mesmo a dos progressistas) era a de que algo de sem-terras estava ocorrendo para “chamar a atenção”. E só. Mas a atenção para o que? Para quem? Por que uma proposta de reforma agrária diferenciada da do MST deveria ser explorada? Em que consistiria o mote “reforma agrária do século XXI”? Quer dizer que existe proposta de reforma agrária para além da idéias do MST? Quais são? São pertinentes?

EU LUTO, NÓS LUTAMOS

Desde as lutas messiânicas ao cangaço, passando pelas Ligas Camponesas, a luta pela terra no Brasil nunca cessou. Desde as capitanias hereditárias até os latifúndios modernos – e o agronegócio – a estrutura fundiária, excludente e responsável por desigualdade social no país, vem sendo mantida. Neste cenário, a questão agrária tem se expressado por meio de tensões e confrontos, muitas vezes sangrentos, entre uma massa de despossuídos e os donos da terra quase sempre protegidos pelas leis e pelo Estado. Todo militante social sério tem presente este óbvio: a luta pela terra é fundamental para a efetiva democratização do país. Na década de 70, com os incentivos fiscais dados pelos militares a empresas colonizadoras no Norte e no Centro-Oeste explodiu a violência no campo. Nos anos 80, os sem-terra partem para a ofensiva, buscando a efetivação da reforma agrária pelas ocupações de latifúndios improdutivos, mudando a geografia do campo brasileiro, mobilizando o apoio da sociedade. É ai que o MST alcançou merecido protagonismo, pautou a questão agrária como determinante na política nacional. Mas sua concepção, como a de qualquer ator em qualquer campo da vida, tem limitações. Para o MST, o principal inimigo ainda é o grande latifúndio improdutivo, embora a organização afirma hoje ter uma grande preocupação com a produção nos assentamentos e com a questão ambiental.

Mas isso que o MST levanta hoje, o MLST tem no cerne da sua proposta desde sua fundação. O modelo de reforma agrária vigente foi superado; o principal inimigo não é mais o latifúndio improdutivo, mas sim o agronegócio que articula poderosos interesses econômicos, políticos e sociais, fazendo combate contra a reforma agrária. Uma nova forma de organização econômico-social do meio rural, com a implantação de Acampamentos Produtivos, Assentamentos Inteligentes, Pólos de Desenvolvimento e a Empresa Agrícola Comunitária, ou seja, com o foco na produção a partir de métodos agroecológicos, conforma uma Reforma Agrária do Século XXI que tem em essência a valorização do ser humano e a construção de uma vida digna no campo.

Foi com base nesse projeto que o MLST, cinco anos depois da grande polêmica do quebra-quebra no Congresso – que resultou na indevida, vexatória e mal-explicada condenação moral e penal do Movimento – retorna a Brasília, desta vez depois de uma longa e propositiva Marcha. A “Marcha da Reforma Agrária do Século XXI – Aperte a mão de quem o alimenta” foi uma pesada aposta política do MLST que se provou qualificadora e capacitante. O MLST chamou, organizou e conduziu mais de mil de seus militantes durante 20 dias através 200 km para dar voz e vez a sua pauta de propostas. Na semana de cinco a nove de setembro, depois da longa caminhada até a capital da república, a coordenação nacional do MLST teve uma maratona de reuniões diretamente com os titulares de pelo menos nove ministérios e órgãos federais, para apresentar sua agenda por uma concepção atualizada de reforma agrária, em dia com o século XXI, e ajudar a erradicar a pobreza no Brasil.

Por isso foram tantos quilômetros de pé na estrada, tantos dias de marcha, tanta estrutura e logística. Foi e é por uma causa, pela necessidade de uma reforma, pela importância de mostrar a pluralidade da luta pela terra no Brasil, de valorizar o agricultor familiar que no seu conjunto é responsável por mais de 70% da produção de alimentos no país. Foi e é um convite para que a sociedade brasileira aperte a mão desses trabalhadores e trabalhadoras, reconheça e se alie com quem ajuda a construir soberania nacional, e que o quê se transforme sejam as partes mesmas dessa sociedade, por um país mais justo e livre de miséria. Nós, que também nos transformamos, saudamos todos e todas participantes, e nos orgulhamos de ter sido companheiro dessa atividade e de acreditar na força da mobilização social do povo brasileiro.

*Aleksander Aguilar é jornalista e mestre em Estudos Internacionais.